30/04/2016 por Marco Ferrari

Seja tinto, rosado ou branco; afinal, quem faz o vinho?

Ou melhor quem deve ser o responsável pela qualidade do vinho?

vinho-1Os meus alunos do curso de sommelier da FISAR prontamente responderão que o responsável pela produção do vinho é o enólogo. Didaticamente está certíssimo.

Mas a questão é mais profunda, uma vez que toca o quesito qualidade, ou seja, transcende o lado puramente técnico da produção e parte para excelência. Aqueles detalhes que fazem com que um vinho seja considerado melhor qualitativamente do que outro “apenas” tecnicamente bom.

Para responder esse questionamento não dá pra fugir de uma saudável subjetividade, cada degustador tem suas preferências. Preferências, não de gosto pessoal, gosto desse e não daquele, mas preferência a ser entendida como estilo de vinho que mais gostamos, a soma daquelas características que nos fazem concordar com o estilo do enólogo que produziu aquele vinho.

Minhas preferências vão para aqueles vinhos em que o enólogo menos aparece, um estilo neutro, quase minimalista.

Ao tomar emprestado esse termo artístico quero falar de vinhos nos quais o homem pouco influi no sentido de modificar as influências climáticas do terroir que deu origem às uvas e, consequentemente, ao vinho.

Manter e deixar que apareçam, as sutis influências dadas pelo tipo de solo e outros detalhes que completam a expressão do terroir, requer atenção, sensibilidade e certa dose de humildade. Diante da natureza soberana, atitude que impõe ao enólogo sair dos holofotes para dar espaço ao vinho em si.

Quero dizer uma mão leve, guiada com tanta sabedoria que conduz o vinho a expressar melhor a força da natureza que o criou; intervenções mínimas, tanto no vinhedo como na adega, que visam dar ao vinho o protagonismo, não a quem o fez.

Podemos aí individuar vinhos com características mais refrescantes, com uma certa ponta de acidez suculenta, mediamente leves, tanto na boca como no teor alcoólico, onde o aroma marcante de madeira não aparece, vinhos agradáveis e que deixam com vontade de tomar mais uma taça.

A perfeita antítese dos vinhos repletos de frutas ultra maduras, lembrando geleia, paladar quase doce, macios e condimentados com fortes notas de baunilha, tostado e achocolatado, que tem sua origem a partir de longos afinamentos em carvalho novo.

Para estes últimos vinhos existem até receitas prontas, basta usar com mão pesada o mesmo tipo de barrica, e os aromas e sabores serão replicados, independente do terroir de origem e da casta dominante.

Um estilo que já foi identificado com o Novo Mundo, mas que hoje cada vez mais, é considerado um padrão internacional.

Esse “padrão internacional”, como geralmente acontece, significa de lugar nenhum e sem identidade própria. Definitivamente não faz o meu gosto.

Abraços e até a próxima.

Marco Ferrari


Marco Ferrari
Marco Ferrari, italiano de Biella, no Piemonte, mora em Fortaleza desde 1991 e é profissional do vinho desde 1994. A paixão por essa bebida começou na infância quando ajudava minha família a colher as uvas e fazer vinho na chácara da minha avo materna.

Desde então sempre gostou de tudo que gira entorno do vinho, até o momento que surgiu a oportunidade de trabalhar diretamente com ele, de inicio na área comercial, de algum tempo para cá se dedica à divulgação da cultura do vinho como um todo, ministrando cursos, palestras e treinamentos na região.

Com o curso de sommelier da FISAR (Federação Italiana de Sommelier), entidade à qual é filiado, na FANOR, já formou 19 sommelier, muitos dos quais atuam nos melhores restaurantes da cidade e interior.

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