03/02/2017 por Rafa Britto

Por que temos medo de gatos?

Traiçoeiros, desconfiados, malígnos. Injustamente, gatos levam uma fama absurda, sem nem dar uma chance para se explicarem e provarem o contrário. Alguns dão, como eu, e são gravemente afetados pelo amor e energia renovadora dos felinos.

Foto: divulgação internet

Há milênios, os seres humanos publicaram um livro enorme chamado “Manual de Sobrevivência Humana”, que estava escondido em uma caverna longínqua e foi encontrado recentemente por antropólogos marroquinos. No capítulo “Felinos”, encontrei as dicas abaixo:

“Não encare de forma alguma o olhar de um gato. O bichano é capaz de injetar raios ultravioletas direto em seus olhos caso isso aconteça, principalmente se as pupilas estiverem naquele formato vertical assustador.

Em hipótese alguma tente acariciá-lo, pois suas unhas alá wolverine instantaneamente irão se erguer e estraçalhar sua pele como quem rasga um tecido esticado quiçá não atacarem seu belo rosto. Ah, e nunca, jamais, cruze com um gato preto, caso isso aconteça pode contar os seus dias, seus últimos dias nesta viagem chamada vida.”

Claro que tudo que você leu até agora faz parte da minha fértil imaginação, mas bem que poderia ser real diante da ideia propagada e cultura arraigada de que gatos são traiçoeiros e até demoníacos, vide a superstição do gato preto.

Quantas pessoas você não conhece que têm essa ideia sem nunca, digo nun-ca terem dado uma chance? Eu mesma pensei assim por toda a minha vida, tinha medo mesmo de encarar gatos, medo deles me arranharem por qualquer besteira por serem “traiçoeiros”.

Sempre fui uma pessoa que prefere cachorros, tive o meu primeiro aos 10 anos e o último, um schnauzer chamado Pingo, foi pro céu dos dogs no ano passado.

Traiçoeiro x Autêntico

Lembro do dia exato em que comecei a abrir minha mente para desfazer todo o pré-conceito que gira em torno dos bichinhos. Morava só e vi o dia amanhecer pela janela do meu apartamento.

Foto: divulgação internet

Com os braços no parapeito, observei um novo clima, uma nova paisagem no bairro, no estacionamento do supermercado, na rua sempre movimentada ao longo do dia, no silêncio. Talvez contemplando mesmo, talvez apenas procurando algumas respostas.

Foi justo nesse silêncio, nesse clima ameno permeado com os poucos e saudáveis raios de sol das cinco da manhã, que vi um gatinho passando pelo telhado da casa vizinha, bem embaixo da janela. Era um gato dourado, com olhos verdes ou azuis, acho.

Não o chamei nem me mexi, mas, mesmo assim, ele olhou pra cima, parou e me encarou antes de continuar sua caminhada. Eu encarei de volta, estava corajosa (mentira, a lógica é que ele tava longe mesmo rs).

Fato é que a troca de olhares mexeu comigo. O gatinho falou com os olhos e me disse que, mesmo no silêncio, há movimentação. Era um olhar amigo, confortante, cheio de vida e de sensibilidade. Mal sabe ele que me deu um sorriso no rosto.

Naquele instante, perdi um pouco do medo dos gatos e aprendi um pouco mais sobre o que a nossa vã filosofia teima em desconhecer.

Do medo fez-se o xodó

Alguns anos depois desse episódio, já sem conviver com nenhum bicho em casa e sentindo a maior falta, ganhei de presente a Elis (Regina) e adotei junto com a empresa uma gatinha chamada Iris, que acabou virando nossa mascote.

Elis recém-chegada. Tem como não se derreter?

Uma gatinha linda, cheia de personalidade, afoitice, se acarinha quando ela quer, mas sempre está ao lado quando estamos doentes ou simplesmente nos sentindo tristes ou precisando de companhia. Ela sente, ela sabe. Confesso que não foi difícil me acostumar àquela coisinha mais fofa brincando pra cima e pra baixo dentro de casa.

Um ano depois um magrelo esquelético com o bucho cheio de verme e podre de feio foi jogado fora dentro de uma caixa na calçada, junto com mais dois irmãos. Coração se compadeceu e chegou o Tom (Jobim) para fazer companhia à Elis (os irmãos também estão em lares cheios de amor).

Preto, com o pelo macio e brilhoso, é um xodó, todo meigo, carinhoso e estabanado. Ao contrário do que diz a superstição, ele é capaz de renovar qualquer energia negativa e, sim, se esconde longe quando sente energias estranhas.

Elis e Tom hoje me dão uma alegria e um amor que só os bichos são capazes de dar. Às vezes a mais afoita nos arranha ou morde no meio das brincadeiras ou de um carinho que ela não esteja a fim. Mas, de boa, quantos de nós não arranhamos com palavras esses mesmos carinhos de outrem? Pelo menos ela é autêntica e não tem mimimi.

Tom Jobim, o gato preto mais dengoso que já conheci.

Continuo amando cachorros, não temos que escolher lados, ou um ou outro.

Mas aprendi que na vida corrida que levo, os gatos melhor se adaptam: não precisam passear na rua, não precisam dar banho direto, não deixam a casa com cheiro, fazem necessidades exatamente onde precisam fazer, não são carentes em níveis mexicanos e ainda ficam de boa alguns dias com a comidinha lá, afinal, estão no reinado deles e se bastam.

Os gatos podem até já nascerem pobres

Porém, já nascem livres.

Aprendamos com eles.


Rafa Britto
Libriana com ascendente em Touro, pernambucana abraçada pelo Ceará. Viciada em comunicação, seja ela escrita, falada ou observada. É jornalista, mas também corre, escreve poesia, faz yoga, medita, devora livros, toca violão e canta amadoramente, cozinha quando dá na telha, amante da vida.

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