13/01/2017 por Rafa Britto

A importância da memória afetiva

Revisitar o passado, com seus sabores, cheiros e personagens, nos permite realizar uma viagem dentro de nós e, mais além, planejar a próxima viagem com ainda mais clareza.

“Sou feita de retalhos.

Pedacinhos coloridos de cada vida que passa pela minha e que vou costurando na alma.

Nem sempre bonitos, nem sempre felizes, mas me acrescentam e me fazem ser quem eu sou.

Em cada encontro, em cada contato, vou ficando maior…

Em cada retalho, uma vida, uma lição, um carinho, uma saudade…

Que me tornam mais pessoa, mais humana, mais completa.”

Cora Coralina define muito bem nesse poema nossa composição com o passar dos anos. Pensando cá com meus cachos sobre esses retalhos e sobre a importância de cada pedacinho – que pode ser uma pessoa, um lugar, um cheiro, uma casa, um cachorro. Não importa muito, o que nos define é o quanto de nós esteve presente nesses espaços e o quanto de cada tempo está em nós até hoje, nos compondo.

A importância de saudar o caminho que percorremos é que ao reconhecê-lo, sem subterfúgios, trilhamos o caminho à frente com mais clareza.

Nossa memória afetiva guarda imagens, sabores e cheiros da infância em um HD potente, capaz de sobreviver mesmo à chuvas e trovoadas. Lembro com  detalhes algumas dessas cenas preservadas nesse HD aí. Cavalgar na fazenda do meu tio com meus primos, aguar as plantas com minha avó e madrinha, aprender a comer ostra com meu pai ainda com 5 ou 6 anos, para ficar mais “forte” e logo depois carregar os cascos de cerveja que ele pediu (espertinho rs), a vitamina de banana que minha mãe fazia e faz até hoje, enfim, tem pano pra manga.

Foto: divulgação internet

Nada disso se perde, se transforma. Em quem somos hoje, em quem queremos ser e até em quem não queremos ser, se for contar com algumas referências que não consideramos ideais, mas que compuseram nossas memórias afetivas.

Seja quais forem as cenas e as pessoas envolvidas, nos moldamos de acordo com o que consumimos ao longo da vida, outros sabores, cheiros, amizades, amores e a arte. O que passou importa sim, mas não determina.

Sim, a arte tem essa função mesmo, de nos acalentar, de nos provocar e também, porque não, de nos moldar. Vide aí o poema que deu início ao texto de hoje, poesia aliás é um dos meus xodós, assunto para outra pauta.  

“O importante não é a casa onde moramos. Mas onde, em nós, a casa mora”

Trecho do livro “Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra“, de Mia Couto. Li coincidentemente em uma visita que fiz à casa dos meus pais. Onde vivi por mais de dez anos e até hoje vivo, pois estou em cada canto dela. E ela está em mim. Às vezes a correria me deixa esquecer, mas o resgate é vívido, aconchegante e até emblemático. Não pertence mais a mim e pertence ao mesmo tempo. Confuso? Que nada, a paz de espírito é o resultado da simplicidade desse fato.

É importante revisitar nossas raízes vez ou outra, mas eu diria que mais essencial ainda é tê-las bem aqui, dentro de nós. Até porque eu me levo para todo lugar, né? Não tenho como fugir. Eu estou junto comigo o tempo todo. Eu quero ter raiz, mas raízes aéreas, que eu possa levar para onde eu quiser.

Somos feitos de retalhos, mas vale sempre lembrar que também somos os costureiros responsáveis pela colcha final.


Rafa Britto
Libriana com ascendente em Touro, pernambucana abraçada pelo Ceará. Viciada em comunicação, seja ela escrita, falada ou observada. É jornalista, mas também corre, escreve poesia, faz yoga, medita, devora livros, toca violão e canta amadoramente, cozinha quando dá na telha, amante da vida.

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