14/07/2017 por Rafa Britto

Como se alimentar de poesia em tempos de seca

Em tempos inegavelmente difíceis, quando a conjuntura sociopolítica e até cultural inibe a sensação de tranquilidade, a arte e a poesia, especificamente, podem nos ajudar a ter momentos inspiradores, capazes de nos alimentar de esperança e vida.

“Eu morro ontem

Nasço amanhã

Ando onde há espaço:

– Meu tempo é quando”

Vinícius de Morais

Poesia é alimento: há de se estocar para os tempos de seca“. Essa frase nunca fez tanto sentido. Em meio à seca aspiracional a que estamos vivenciando no mundo como um todo e no nosso país mais especificamente, é inspirador poder sentir a poesia de várias formas em nosso dia, nos render à arte e ao poder transformador que ela provoca.

Olhar o mar e ver a luz do sol refletindo é poesia, ouvir o barulho do vento é poesia. Observar um pássaro cantando “desesperado” de manhã cedo é poesia, viajar nos formatos das nuvens, até o bueiro tem lá sua poesia, já diria um grande amigo poeta.

Manoel de Barros, um dos meus preferidos, fala muito sobre isso, sobre a grandiosidade das coisas pequenas. Sobre como algo que passa despercebido pode nos levar a um outro lugar, dentro de nós mesmos e diante da vida. Gosto da poesia assim, singela, digamos. Mas também gosto da poesia hardcore, a que nos tira de prumo e nos dá uns tapas na cara, como a de Leminski, por exemplo.

Outro dia me lembrei de uma cena do filme Sociedade dos poetas mortos, um dos filmes que estão na minha lista pessoal dos preferidos e que foram/são importantes durante toda a vida.

Inclusive, a expressão “Carpe Diem“, hino do filme do início ao fim, foi dita, repetida e vivida desde minha adolescência e até hoje procuro incorporar esse espírito diariamente.

Seize the day!

A cena que veio à mente foi a que o professor vivido por Robin Williams (Captain oh my captain), sobe na mesa no meio da aula e diz:

“Estou em pé nesta mesa porque devemos mudar constantemente a nossa visão. Quando você acha que sabe alguma coisa, experimente olhar por outro prisma”

E daí todos os meninos também sobem na mesa, observando de fato o quanto a

Cena do filme “Sociedade dos Poetas Mortos”

mudança de ângulo, de prisma faz com que a percepção mude. É a mesma coisa a ser vista, o mesmo objeto, a mesma situação, mas tente olhar de um novo lugar.

Poesia nada mais é do que isso, um olhar diferente sobre coisas comuns.

Olhar as coisas por um novo prisma às vezes muda tudo, tranquiliza, afaga, ilumina e engrandece e, claro, nos proporciona novas perspectivas.

Já que estou falando nesse clássico, há ainda outra passagem que me emociono e é justamente o fio da meada nesse texto de hoje. Até bom para quem acha que poesia é só algo “bonitinho” e que é mais importante trabalhar e cuidar da vida prática para pagar contas. 

“Não lemos nem escrevemos poesia porque é bonitinho. Lemos e escrevemos poesia porque somos humanos. A raça humana está repleta de paixão. Medicina, advocacia, administração, política… São objetivos nobres e necessários para manter-se vivo. Mas a poesia, a beleza, o romance e o amor… é para isso que vivemos”

Afinal, de que adiantam tantos números, tantos relógios, tantos paradigmas, tantas reuniões, tantas mesas de bar, tantos conhecidos, se esquecemos de sentir e viver essa poesia e beleza em tudo a nossa volta?

É para isso que vivemos.


Rafa Britto
Libriana com ascendente em Touro, pernambucana abraçada pelo Ceará. Viciada em comunicação, seja ela escrita, falada ou observada. É jornalista, mas também corre, escreve poesia, faz yoga, medita, devora livros, toca violão e canta amadoramente, cozinha quando dá na telha, amante da vida.

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