10/02/2017 por Rafa Britto

Cidades do Coração

A nossa relação com as cidades é algo que precisa ser apreciado, de verdade, pois diz muito de quem somos e para onde vamos.

Aprendi a me relacionar com outras cidades desde minha chegada à Fortaleza. aprendi inclusive a me tornar até mais recifense, com o olhar que tive de fora. A ter cidades do coração, aquelas que são queridas por uma série de motivos e, o principal, por parecer um pouco como a gente.

Recife é meu xodó, onde nasci, onde passei a infância aprendendo personagens, nomes de ruas, bairros históricos. Com uma família apegada à cultura e à história, pude ter um contato mais profundo com as raízes.

Recife com suas pontes, seu maracatu, frevo, forró pé de serra, xaxado, capoeira, é onde me (re) encontro sempre. É minha história, é uma cidade que tem um lugar único no coração. Por isso, não precisa ter ciúmes, é bem como disse o artista Cícero Dias, “eu vi o mundo… ele começava no Recife”.

Ganhando o mundo

Depois que cheguei em Fortaleza para morar e comecei com essa brincadeira de viajar e conhecer lugares novos em outros estados e países, fui expandindo horizontes, me descobrindo em alguns lugares mais do que outros.

Hoje em dia tenho minhas cidades preferidas, as que guardo no coração mesmo e que quero sempre voltar. Rio de Janeiro, Buenos Aires, Montevideo, La Cumbrecita, são algumas. Sempre penso, lembro e me teletransporto, sentindo aquele mesmo exato momento, o que me faz dar um sorriso fácil. 

Caminhando em Buenos Aires e me sentindo em casa.

Sobre Buenos Aires, em um dos primeiros textos que publiquei aqui falo da experiência de correr minha primeira meia maratona lá, na quarta visita à terra do tango. Se quiser saber mais, pode conferir aqui.

São cidades que têm uma energia muito parecida com a minha, que têm uma identidade cultural, um ritmo próprio, é muito gostoso poder voltar sempre e me sentir em casa.

Como disse o escritor uruguaio Eduardo Galeano, a explicação para ele viver em Montevideo era o fato de ser uma cidade “caminhável e respirável”. Comecei a pensar em Fortaleza assim. Comecei a caminhar mais nas ruas, a respirar ainda mais fundo na beira da praia e a admirar o pôr do sol belíssimo dessa cidade, over and over.

Vivendo a Terra da Luz

E assim foi, fui me apaixonando por esta cidade bela e acolhedora. Camarão no Mucuripe, Praia do Futuro; ali com toda sua estrutura e acessibilidade aos amantes do mar; adorava fazer tudo andando quando morava em Meireles, minha primeira morada.

Andava olhando tudo em volta, as lojas, as casas, os prédios, as calçadas. Morei ainda em Luciano Cavalcante, bairro mais interiorano, mas que aprendi a gostar também, a conhecer a Cidade dos Funcionários, Água Fria e arredores. Lagoa Redonda, Sabiaguaba.

Apenas um dos incríveis pores do sol que coleciono aqui em Fortaleza.

Colecionando cidades, colecionamos também momentos.

Morar nos bairros Joaquim Távora e depois Aldeota me permitiu andar muito a pé, caminhando, observando, respirando. Fora o Benfica, outro bairro querido, das praças e da cerveja gelada com preço justo.

Violência? Toda cidade tem. Prefiro focar no céu lindo, todas as horas do dia, com a dança que as nuvens fazem em cima da gente, com o pôr do sol visível em vários cantos da cidade.

Idas e vindas fazem parte. Já fui e já voltei algumas vezes também. Mas o que importa é o quanto dos lugares queridos mora na gente. E o quanto de nós fica nos lugares.

São cidades que ficam no coração, um canto a mais pra voltar, um canto a mais para ser quem somos e se (re) descobrir.

E a coleção vai aumentar. Isso porque ainda não fui à Belo Horizonte, que tenho a ligeira impressão de vir a ser uma dessas, Paris, Nova York, Amsterdam, Toscana, enfim, que bom que o mundo é grande e que nasci com olhos sedentos para ver esse mundão que, claro, começou no Recife.


Rafa Britto
Libriana com ascendente em Touro, pernambucana abraçada pelo Ceará. Viciada em comunicação, seja ela escrita, falada ou observada. É jornalista, mas também corre, escreve poesia, faz yoga, medita, devora livros, toca violão e canta amadoramente, cozinha quando dá na telha, amante da vida.

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