03/03/2017 por Rafa Britto

Chove lá fora e aqui…

Chove lá fora e aqui faz tanto frio? Ou tá morno, confortável? Sentir essa chuva na pele é fácil e bem perceptível, mas e sobre como sentimos esse tempo nublado e líquido na alma?

“A chuva cai onde e quanto quer, você escolhe se foge ou aproveita”, essa

Arte parte da série “quinta-feira”, do artista Ramon Cavalcante.

frase ilustrada num dos quadrinhos em azulejos do artista Ramon Cavalcante é um dos itens de decoração/reflexão que mais gosto lá de casa. Por vários motivos, entre eles porque sempre tive uma relação de paz e de entrega com a chuva.

Por morar no Nordeste, região com bem menos chuvas, o fato da água cair do céu sem dúvida vira sempre um acontecimento. Divino até.

Reparem, é interessante demais isso de cair água lá de cima, lembro ainda eu criança deslumbrada, tentando entender isso. Claro que a 4ª série chegou e me explicou bem direitinho o processo científico da coisa. 

E o processo poético, aquele que percorre a alma?

Começar a chuva e ir correndo lá fora tomar banho e pular nas poças, infantil? Não sei, mas lamento muito quando não consigo fazer isso. Só não lamento mais porque me adapto fácil e já vou aproveitando esse aguaceiro de outra forma.

Foto: divulgação

No trabalho, tasco uma playlist “Rainy mood compilation jazz”; em casa, nada como um vinho ou um bom café passado na hora, ouvindo uma música nesse naipe também.

Mas voltando lá pra reflexão, a chuva lava. E encharca também. Pode ser uma boa oportunidade de lavar muita coisa que se passa aí dentro. Deixar ir, deixar seguir com esse fluxo de mudança de clima, de tempo.

As metáforas nunca são à toa, têm o seu propósito, sua forma poética de nos situar as coisas, as nossas próprias.

A sensação de lavar, de expurgar, de renascer. Deixar-se sentir e refletir sobre isso nos impulsiona saltos incríveis. Claro, a opção de não refletir também existe, e aí a gente apenas vai indo, vai vivendo, chuva após chuva, mas a inspiração e expiração diante de uma paz interna alcançada fica um tantinho mais longe. Essa é a escolha da fuga, do quadrinho lá de cima. Como tudo na vida, questão de escolha.

É importante lavar o que está sujo. É importante molhar o que está seco.

Saber celebrar os dias nublados, nos garante ainda o calor em tempos frios e nos faz dar mais valor ao sol, quando este vem com tudo, rasgando e aquecendo a alma.  

Chuva também é liberdade, como bem poetizou meu querido Manoel de Barros: “Sem chuvas, já reparei, as andorinhas perdem o poder de voar livres.”


Rafa Britto
Libriana com ascendente em Touro, pernambucana abraçada pelo Ceará. Viciada em comunicação, seja ela escrita, falada ou observada. É jornalista, mas também corre, escreve poesia, faz yoga, medita, devora livros, toca violão e canta amadoramente, cozinha quando dá na telha, amante da vida.

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